O plenário da Câmara, que deveria ser território do verbo, virou arena de corpo contra corpo. A sessão que antecedia a votação de cassação de Glauber Braga (PSOL-RJ) degenerou em pancadaria, paletó rasgado, seguranças avançando, parlamentares empurrados — enquanto a imprensa era expulsa do plenário e o sinal da TV Câmara simplesmente desaparecia do ar.
Não foi falha técnica: foi blackout político. A ausência súbita de imagem, som e registro institucional não é silêncio — é censura luminosa. É quando o poder decide calar o país, não pela palavra, mas pela interrupção dela.
A cena registrada apenas por celulares de parlamentares e repórteres expôs fissuras profundas do Parlamento. O deputado ocupou a cadeira da presidência como protesto, algo passível de punição regimental, mas passível também de diálogo — alternativa que não foi sequer tentada.
O que chocou não foi o protesto, e sim o método para reprimi-lo: uso da força, expulsão da imprensa, corte da transmissão. Três golpes contra a democracia na mesma tarde, cometidos dentro do órgão que deveria defendê-la.
E é impossível ignorar o símbolo maior dessa escuridão momentânea: Óscar Niemeyer projetou os plenários da Câmara e do Senado sem janelas para que a imprensa fosse os olhos da sociedade brasileira. Não há vidro para o povo mirar — há câmeras. Por isso desligá-las não é simples decisão técnica: é fechar o único olho que a arquitetura deixou aberto.


