A religião evangélica é hoje o grupo religioso que mais cresce no Brasil. Segundo levantamentos recentes do IBGE, os evangélicos já representam quase um terço da população brasileira — e, dentro desse universo, a Assembleia de Deus ocupa um lugar central.
Mas como essa igreja surgiu? E o que explica seu impressionante crescimento ao longo de mais de cem anos de história?
As origens do pentecostalismo
O movimento pentecostal teve início nos Estados Unidos, no início do século XX, em meio a um ambiente de fervor religioso e busca por experiências espirituais mais intensas. A chamada “experiência do Espírito Santo”, marcada por orações emocionadas e manifestações como o dom de línguas, profecia, cura e outros charis — ou dons — concedidos pelo Espírito Santo, rapidamente se espalhou entre fiéis de diferentes origens sociais e culturais.
Esses charis são entendidos como manifestações especiais da graça divina, que capacitam os crentes para uma vivência mais profunda e eficaz da fé. Eles não são apenas sinais exteriores, mas forças espirituais que fortalecem a comunidade e facilitam a construção de vínculos de confiança e comunhão.
O ponto de partida do pentecostalismo moderno é geralmente associado ao Avivamento da Rua Azusa, ocorrido em 1906, em Los Angeles, liderado por William J. Seymour. De lá, missionários levaram a nova doutrina a vários países, incluindo o Brasil — onde encontraram terreno fértil entre as camadas populares e trabalhadores urbanos e rurais, ávidos por uma fé que trouxesse sentido prático e conforto diante das dificuldades cotidianas.
A chegada ao Brasil
A história da Assembleia de Deus no Brasil começa em 1910, quando dois missionários suecos, Gunnar Vingren e Daniel Berg, desembarcaram em Belém do Pará e começaram a se reunir na já existente Primeira Igreja Batista do Pará. Como defendiam as ideias do pentecostalismo e após terem a experiência do “Espirito Santo”, romperam com os batistas, começaram a pregar em pequenos grupos, conquistando seguidores que buscavam uma vivência religiosa mais direta, emotiva e comunitária.
Fundada em 1911, a primeira congregação da “Missão da Fé Apostólica” – que mais tarde viria a se chamar Assembleia de Deus – rapidamente se espalhou pela Região Norte, alcançando depois o Nordeste e o Sudeste, principalmente por meio de pregadores itinerantes e da forte comunicação oral entre comunidades.
Ao longo do século XX, a Assembleia de Deus se expandiu de forma impressionante. Parte desse crescimento se deve ao carisma dos líderes locais, que também pode ser entendido como um charis, um dom especial concedido por Deus para guiar, inspirar e fortalecer a comunidade. Este carisma, manifestado por meio da capacidade de liderança, persuasão e do testemunho de vida, tornou-se um elemento fundamental para consolidar a fé e a organização das igrejas locais.
Os líderes carismáticos eram vistos não apenas como dirigentes administrativos, mas como instrumentos do Espírito Santo, dotados de uma graça especial para ajudar os fiéis a experienciar os dons espirituais, resolver conflitos e orientar as decisões coletivas. Assim, o carisma passou a ser um elo espiritual e social, capaz de unir as comunidades e motivar a expansão do movimento.
Além disso, a forte atuação comunitária, com ênfase em valores como solidariedade, disciplina, apoio mútuo e compromisso social, contribuiu para que a Assembleia de Deus fosse mais do que um espaço de culto: tornou-se uma rede de convivência e suporte para muitos brasileiros.
Divisões e diversidade das denominações
Apesar de seu crescimento e influência, a Assembleia de Deus não se manteve como uma entidade unificada. Ao longo do tempo, ocorreram diversas divisões internas, que deram origem a múltiplas denominações, ministérios e convenções autônomas.
Essas divisões resultaram de diferenças doutrinárias, administrativas, culturais e até pessoais entre líderes. Atualmente, existem dezenas de vertentes da Assembleia de Deus no Brasil, cada uma com suas características específicas, estilos de culto, ênfases teológicas e áreas geográficas de atuação.
Esse fenômeno mostra a complexidade do movimento pentecostal que, embora fragmentado, mantém uma identidade comum em torno da experiência do Espírito Santo e dos charis. Essa pluralidade, paradoxalmente, fortalece a presença da Assembleia de Deus no país, alcançando diferentes públicos e adaptando-se às variadas realidades regionais.
Utilização dos meios de comunicação e tecnologia
Outro fator crucial para o crescimento e a consolidação da Assembleia de Deus foi a capacidade de adaptação às novas tecnologias de comunicação. Desde rádios comunitárias, programas de televisão até o uso intenso de plataformas digitais e redes sociais, a igreja ampliou seu alcance e influência.
Essa comunicação eficaz não só divulgou a mensagem pentecostal, mas também ajudou a manter a coesão entre comunidades dispersas geograficamente, fortalecer a identidade religiosa e apoiar a mobilização social e política.
Influência na sociedade brasileira
Mais do que uma igreja, a Assembleia de Deus se tornou um movimento social e cultural. Sua presença é forte em comunidades periféricas, em cidades pequenas e em grandes centros urbanos. Muitas vezes, ela representa uma rede de apoio social, um espaço de convivência, educação religiosa e até de mobilização comunitária.
O movimento pentecostal também influenciou profundamente a música gospel brasileira, o discurso político e a estética da fé no país. Estilos musicais, linguagens e práticas culturais foram moldados pela experiência pentecostal, tornando-se expressões reconhecidas da identidade religiosa de milhões de brasileiros.
Nos últimos anos, representantes ligados à Assembleia de Deus têm ocupado cargos políticos e influenciado debates públicos sobre temas como moral, costumes, direitos sociais e políticas públicas. Essa participação política, por sua vez, reforça a relevância do movimento no cenário nacional e seu impacto em decisões que afetam a sociedade como um todo.
Fé e transformação
Para os fiéis, o crescimento da Assembleia de Deus reflete o poder de uma mensagem que prega renovação espiritual, esperança e comunidade. Em um país marcado por desigualdades sociais, crises econômicas e instabilidade política, a fé pentecostal oferece não apenas consolo, mas também um forte sentido de pertencimento, identidade e propósito.
Mais de um século depois da chegada de Gunnar Vingren e Daniel Berg, o que começou como um pequeno grupo em Belém do Pará tornou-se uma das maiores expressões religiosas da América Latina — e um dos fenômenos sociais e culturais mais marcantes da história recente do Brasil.


