O ex-deputado Uldurico Júnior e seus familiares teriam recebido cerca de R$ 170 mil em propinas relacionadas à fuga de detentos do presídio de Eunápolis, em dezembro de 2024. Conforme depoimento de Joneuma Neres, ex-diretora do Conjunto Penitenciário, presa em abril de 2025, junto ao Ministério Público estadual (MP-BA), o valor seria um “adiantamento” da negociação entre Uldurico Júnior e Ednaldo Pereira Souza, o “Dada”, líder da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), orçado em R$ 2 milhões a serem pagos pela colaboração na fuga de criminosos.
O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”. Em sua delação junto ao MP, Joneuma, que era aliada e parceira do ex-deputado, narra que após a confirmação da aliança entre o político e o líder do PCE, no dia 02 de novembro de 2024, Uldurico ligou novamente para a “Dadá” — até então preso — para acordar os detalhes do pagamento pela facilitação da fuga.
Esta segunda ligação entre os envolvidos ocorreu no dia 03 de novembro de 2024, no Restaurante da Bernarda, localizado na Av. Dom Pedro II, no centro de Eunápolis. No local, ambos negociaram os detalhes para o pagamento das “duas rosas”, termo que se refere aos R$ 2 milhões acordados.
A primeira menção a familiares do político ocorre neste momento. Segundo a denúncia do Ministério Público, com base na delação de Joneuma, “o valor seria pago em espécie no dia 31/12/2024, na cidade de Porto Seguro, quando um Funcionário de Ednaldo levaria o dinheiro para a casa do primo de Uldurico Jr.”. O nome deste “primo” não foi citado, no entanto.
No entanto, dado o cenário pós-eleitoral, com a derrota do ex-deputado do pleito à Prefeitura de Eunápolis, “Uldurico Jr. informou que necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais) para a prestação de contas e em razão de dívidas que possuía. Ednaldo aceitou adiantar o pagamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) antes da data da fuga”.
A análise dos dados encontrados nos quatro aparelhos celulares de Joneuma, cujas senhas foram cedidas por ela em negociação de colaboração com o MP, mostra os diálogos por mensagem entre a ex-diretora do presídio e familiares de Uldurico com relação ao pagamento. O pagamento da propina teria ocorrido no dia 04 de novembro, quando Joneuma se dirigiu a uma residência no bairro Juca Rosa, em Eunápolis, para coletar o pagamento, feito em espécie dentro de uma caixa de sapato.
No mesmo dia, em um dos celulares, o Ministério Público encontrou mensagens entre Joneuma e o ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, que se apresenta como “Uldurico pai”.
Na manhã seguinte, o contato entre ambos foi retomado, com Joneuma perguntando onde deveria encontrar Uldurico Alves para a entrega do dinheiro. Ele respondeu, por sua vez, que ela deveria encontrá-lo em um endereço no bairro de Santa Rita, em Teixeira de Freitas, a cerca de 160 km de Eunápolis.
As análises de geolocalização do Ministério Público confirmam que, no dia, “a colaboradora dirigiu-se à casa de Uldurico Alves Pinto e, em seguida, diretamente para uma agência do Banco do Brasil”. Na casa de Uldurico Alves Pinto estavam presentes a madrasta de Uldurico Júnior, uma funcionária doméstica e um homem identificado como assessor da família. O assessor conferiu o dinheiro na caixa de sapato e cerca de R$ 150 mil foram retidos pelo genitor de Uldurico Júnior.
As informações do MP-BA detalham ainda que o resto do valor, R$ 50 mil, foi “dividido em dois pagamentos, sendo um deles, no montante de R$ 21.600,00 (vinte e um mil e seiscentos reais) diretamente para a conta de ULDURICO JR, conforme comprovantes extraídos do celular da colaboradora”. Outros R$ 24 mil foram repassados via PIX para uma conta em nome de Gustavo Frazão.
Em delação ao MP, a ex-diretora da penitenciária de Eunápolis narra uma segunda solicitação de propina em formato de “adiantamento” por parte de Uldurico Júnior. O ex-deputado teria solicitado um novo pagamento por parte do líder do Primeiro Comando de Eunápolis, no dia 25 de novembro de 2024.
“Ao final do mês de novembro, em 25/11/2024, Uldurico Jr. disse que necessitava de mais dinheiro, requerendo a quantia de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) de Ednaldo. Ednaldo informou que não dispunha da quantia no momento, razão pela qual a colaboradora adiantou recursos próprios”, detalha a denúncia do MP. Segundo Joneuma, R$ 15 mil foram entregues em espécie a Cristiane Pinto da Paixão, genitora de Matheus Brandão, figura vinculada a Uldurico. A entrega ocorreu na casa de Joneuma. Os outros R$ 5 mil foram transferidos via PIX à mesma destinatária.
O valor, segundo Joneuma, foi ressarcido por Ednaldo por meio de uma entrega realizada por um interlocutor, dentro de uma caixa de sapato, durante encontro em frente ao Hotel Oceania, no dia 02 de dezembro de 2024. Em espécie, foram entregues R$ 15 mil na caixa, os outros R$ 5 mil foram entregues por Cley (Cley da Autoescola), Alberto Cley Santos Lima, candidato a vereador pelo Partido Social Democrata (PSD), em um papel de pão em frente a uma agência do Banco do Brasil. Ambos os encontros foram mapeados pelo Ministério Público por meio dos dados geográficos obtidos no celular da depoente.
ROSAS MILIONÁRIAS
Os detalhamentos da investigação ainda demonstram que os valores acordados pela colaboração na fuga de lideranças do PCE não foram pagos. A delação de Joneuma narra que, ainda nas negociações pelo adiantamento, as tratativas entre Dadá, líder do PCE, e Uldurico eram feitas em relação direta. O cenário mudou após o pagamento do primeiro adiantamento, quando ela passou a atuar como intermediadora entre ambos.
“A colaboradora informou que, antes do pagamento do adiantamento, Uldurico Jr. conversava pessoalmente com Ednaldo. Depois do pagamento do adiantamento de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), Uldurico Jr. passou a solicitar à colaboradora que intermediasse a comunicação. Informou que as reuniões que teve sozinha com Ednaldo na Unidade Prisional visavam realizar esta negociação e ganhar a confiança de Ednaldo para que ele adiantasse os valores”, aponta a denúncia do MP.
Joneuma delata que passou a ser pressionada por Uldurico Júnior pelo pagamento das “duas rosas”, ou seja, o restante do valor acordado de R$ 2 milhões, e ameaçada a reter as informações sobre o esquema.
Em sua delação, Joneuma ainda cita que, segundo o ex-deputado, os valores seriam igualmente divididos entre ele e Geddel Vieira Lima, um dos caciques do MDB, a quem ele se referia como “chefe”.
“A colaboradora esclareceu que as mensagens trocadas com Uldurico Jr. em 03/01/2025, nas quais falam sobre ‘chorar as rosas’, referiam-se a quando ocorreria o pagamento do restante do valor acordado pela fuga”, detalha o Ministério Público.
Fonte Bahia Noticias


