Um caixão cruzando a portaria de um presídio sem registro oficial. A cena, incomum até para o sistema carcerário brasileiro, aparece no centro de uma denúncia do Ministério Público da Bahia (MP-BA).
O episódio — um velório autorizado dentro da unidade — ajuda a dimensionar o nível de controle que uma facção teria alcançado no Conjunto Penal de Eunápolis, no sul do estado.
O caso já era investigado pelo órgão estadual. Mas o que deu corpo a denúncia foi a delação da ex-diretora do presídio, Joneuma Silva Neres. Ela foi nomeada pelo ex-deputado federal Uldurico Alencar Pinto, o Uldurico Jr. (MDB), preso na Operação Duas Rosas. Após assumir o comando da unidade prisional, Joneuma passou a ser apontada como peça-chave na liberação das regalias dentro da unidade.
O Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (GAECO) sustenta que líderes do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) viviam com uma rotina bem diferente da prevista para internos, de acordo com o Uol. A reportagem detalha que havia festas, visitas íntimas fora de protocolo e circulação livre pelos pavilhões. Em alguns momentos, com as próprias chaves das celas nas mãos.
Caixão liberado, sem registro
O velório é um dos pontos mais sensíveis do documento. A autorização partiu da direção do presídio, conforme depoimento colhido pelos investigadores. A ordem teria sido direta: “A avó de Sirlon faleceu e eu estou pedindo pra trazer o caixão”.
Sirlon Risério da Silva é citado como braço direito de Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dada, apontado como líder máximo do PCE. O corpo da avó dele entrou na unidade sem passar por qualquer registro formal na portaria.
Em delação, a ex-diretora admitiu que autorizou a entrada. Disse que atendeu a um pedido ligado a um aliado do ex-deputado e que entendeu a decisão como uma “atitude humanitária”. A ausência de controle oficial, porém, chama atenção dentro de um ambiente onde cada movimentação costuma ser monitorada.
“Regalias institucionalizadas”
O velório não era exceção isolada. Funcionários ouvidos descrevem uma rotina de permissões fora do padrão, tratadas quase como regra. Freezers e geladeiras entravam nas celas. Caixas de som eram liberadas. Visitas íntimas aconteciam nos pavilhões, apesar da proibição.
Há ainda relatos de internos com liberdade para circular entre áreas e abrir as próprias celas. Um cenário que, na avaliação de quem trabalha no sistema, desmonta qualquer lógica básica de segurança.
A própria ex-diretora contou que recebeu pedidos diretos para liberar itens como comida diferenciada e eletrodomésticos. Tudo sem muita resistência.
Visitas sem controle e reuniões reservadas
As idas do ex-deputado ao presídio também entraram na mira. Testemunhas afirmam que ele frequentava a unidade com regularidade, acompanhado de outras pessoas. O grupo acessava o interior do presídio sem passar por revista, raio-x ou qualquer registro formal.
Uma vez lá dentro, as reuniões com Dada aconteciam longe de qualquer supervisão. Porta fechada. Em alguns momentos, por horas. Para evitar olhares externos, a janela da sala era coberta com folhas de papel — justificativa interna: “conversa de cadeia”.
Festa com cela aberta e presos armados
Outro episódio citado envolve o Dia da Consciência Negra. A direção permitiu uma festa dentro do pavilhão, com todas as celas abertas. Teve acarajé, roda de capoeira e participação da própria diretora.
O que mais chamou atenção de quem presenciou, porém, foi outro detalhe: detentos circulavam armados com facões e facas na cintura. O relato descreve um ambiente sem controle, onde, na avaliação do próprio depoente, seria possível até uma tomada de reféns para facilitar uma fuga.
Meses depois, 16 presos escaparam da unidade em uma fuga que levou ao afastamento da diretora.
Quem é o ex-deputado
Uldurico Alencar Pinto foi deputado federal pela Bahia entre 2015 e 2023. Tentou a reeleição em 2022, mas ficou como suplente. Empresário, construiu base política no sul do estado e disputou a prefeitura de Teixeira de Freitas em 2024, sem sucesso.
A defesa dele não foi localizada até a última atualização. O espaço segue aberto.
Fonte BNEWS


